OS HUMANOS FENOMENAIS DO SHOW DE HORRORES - PARTE 1

Sara Baartman e Ella Harper, duas mulheres com deformidades físicas
Os shows de aberrações (em inglês, freak show), também conhecidos como shows de horrores ou circo dos horrores eram na verdade espetáculos onde se exibiam  humanos ou  animais portadores de algum tipo de anomalia, deformidade física, mutações genéticas e doenças que foram consideradas incuráveis pela ciência médica da época .

Tais exibições aconteciam  em circos e feiras, sobretudo entre os anos de 1840 e 1970 e se tornaram muito populares nos E.U.A.. Nesses locais, as pessoas com aspecto físicos bizarros foram expostas como animais de zoológico, porém, convém observar que no século 19, muitos humanos que nasciam com deformações estranhas, eram abandonados por seus familiares restando-lhes, em muitos casos, ficarem nas mãos dos empreendedores dos “shows de horrores” como único meio de sobrevivência. 

Crianças e deficientes mentais não tinham vez e nem voz diante dos empresários gananciosos, pois eram completamente enganados e explorados pelos promotores desse tipo evento. Mesmo assim, alguns artistas do Freak Show conseguiram negociar suas apresentações nos espetáculos se mantendo independentes  e até alcançaram considerável riqueza.

Venha nessa matéria  dar uma olhada no passado obscuro desses zoológicos de pessoas e entender o que realmente aconteceu com os bizarros e fenomenais humanos do estranho show de horrores. Comecemos por Sara Baartman:


SARA BAARTMAN,  A VÊNUS HOTENTOTE


réplica em gesso do corpo de sara baartman exposto no museu em Paris
Réplica da "Vênus Hotentote" em exposição no Museu do Homem em Paris

A mulher negra da imagem acima é Sara "Saartjie" Baartman, uma sul-africana da etnia Khoisan nascida em 1789, provavelmente no vale de Camdeboo, na parte oriental da colônia do Cabo. Seu destino: ser exibida como uma aberração em eventos na Europa do século XIX .

Sarah tinha esteatopigia que é a hipertrofia das nádegas, ou seja, nádegas exageradamente grandes devido a uma pré disposição genética para o acúmulo de gordura no local.

Desde a infância sua vida foi marcada por dor e sofrimento. Sua mãe morreu quando ela tinha apenas 2 anos, já seu pai e seu noivo, morreram quando era adolescente.

Quando trabalhava fazendo serviços domésticos em uma fazenda de holandeses,acabou sendo iludida pelo irmão de seu patrão (Hendrick Cezar) com a proposta de que se exibisse suas enormes nádegas no Reino Unido, ela ficaria rica.
lábios vaginais muito grandes
Sinus pudoris: lábios vaginais enormes

Além das nádegas avanjadas, a Venus Hotentote, como a chamavam no continente europeu, possuía outra característica bastante incomum herdada da etnia Koisan, denominada de sinus pudoris ou seja: os lábios internos da vagina eram tão grandes que podiam sair para fora da genitália grosseiramente mais de 10 centímetros.


Em 1810 Sara segue então para Londres, viajando por todo o Reino Unido para exibir as nádegas protuberantes. Por onde passava causava fascinação e espanto. É bom lembrar que, nesta época, nádegas grandes eram um atributo físico valorizado, logo muitas pessoas desejavam ter o que ela tinha naturalmente em seu corpo.Nos espetáculos, Sara Baartman usava vestimenta apertada da cor da sua pele, contas , plumas,e fumava um cachimbo. Àqueles que pagavam uma quantia extra lhes era permitido tocar-lhe as nádegas.

mulher com nádegas enormes por causa da esteatopigia
Esteatopigia: gordura 
super concentrada 
nas nádegas
Alguns ativistas abolicionistas ficaram horrorizados com a forma como os empresários de Baartman a tratavam em Londres e moveram um processo por a estarem "obrigando a trabalhar" naquelas condições, mas o seu "empresário" Dunlop produziu um contrato (muito duvidoso) entre ele e Baartman que o favoreceu no tribunal e acabou por ser  declarado inocente.

Em 1814 ela foi levada para Paris e vendida para um treinador de animais francês. Nas mãos desse homem, Sara passou pelos piores momentos de sua vida. A desafortunada mulher foi de fato escravizada duramente ali sendo forçada a se apresentar totalmente nua (coisa que ela nunca permitia acontecer no Reino Unido) bem como a se prostituir. Os bêbados zombavam dela e apalpavam seu corpo.

Sara Baartman ,a mais famosa mulher do povo khoisan, havia chamado a atenção não somente do povo em geral, mas também de estudiosos como Georges Cuvier, fundador e professor de anatomia comparada do Museu de História Natural. Ele examinou Baartman  à procura de uma prova para o que chamavam de "elo perdido entre animais e seres humanos."

Após a morte de Sara, a Vênus Hotentote,  em 1815, por conta de uma doença inflamatória desconhecida possivelmente varíola ou sífilis, o senhor Georges Cuvier fez um modelo em gesso de seu corpo antes de dissecá-lo. Seu esqueleto, cérebro e  órgãos genitais foram preservados com conservantes e expostos no Museu do Homem de Paris até 1974.

No ano de 2002, o governo francês após solicitação do então Presidente sul-africano, Nelson Mandela, liberou os restos mortais de Sara Baartman, para que fosse repatriada e tivesse um enterro digno de um ser humano.


ELLA HARPER, A GAROTA CAMELO

garota com deformidade que anda como um camelo por causa do genu recurvatu
Ella Harper: uma adolescente no Freak Show

A outra pessoa, uma simpática mocinha (à direita da imagem) é Ella Harper, provavelmente nascida no estado americano do Tenensee, por volta de 1870. 

Essa menina  teve  uma mal formação física,mais comum em mulheres, que é chamada na medicina de genu recurvatu ou joelhos dobrados ao contrário. Sua deformidade lhe rendeu o apelido de "a garota camelo". Devido à estrutura incomum de seu corpo, andar de quatro trazia mais conforto para Ella Harper.

garota camelo Ella Harper posando para foto em pé
A garota camelo
Em 1886, Ella começou a trabalhar  no circo   W. H. Harris’s Nickel Plate Circus onde fez vários espetáculos se apresentando ao público acompanhada de um... (adivinhem!) camelo. , por um cachê de US$ 200 semanais que aliás era um bom dinheiro para a época, porém após quatro anos de carreira circense  a menina camelo resolve sair e buscar novas oportunidades.

Em junho de 1905, ela se casa com Robert L. Savely  em Summer County. Em 1906, ela deu à luz uma menina que morre pouco tempo depois ainda bebê.  Em 1918, ela e seu marido adotaram uma menina recém nascida chamada Jewel Savely, que também morreu com menos de três meses de idade. Em novembro de 1921 Ella Harper morre em Nashville, em decorrência de um câncer no cólon.

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